Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no encerramento do seminário Brasil-China: uma Parceria de Sucesso – Xangai, China, 26/05/2004

Meus amigos da China,
Vice-Prefeito de Xangai,
Representante comercial para a América Latina do governo chinês,
Ministros,
Governadores,
Parlamentares,
Empresários e investidores chineses,
Empresários e investidores brasileiros,

Eu acredito que estamos vivendo, no dia de hoje, mais um momento auspicioso na relação China-Brasil. É importante que tenhamos bastante clareza e muita humildade para sabermos que, antes de nós, muitos trabalharam para que pudéssemos viver este dia. E eu espero que daqui a trinta anos outros empresários, outros governantes, ao visitarem a China tenham a dimensão de que o que nós estamos plantando terá frutificado o triplo ou, quem sabe, até mais do que já conquistamos até o dia de hoje.
Eu queria dizer que aqui, junto conosco, além das autoridades que já foram mencionadas, está o nosso querido Clayton, presidente da Embrapa, uma empresa que, certamente, tem muito conhecimento como a instituição de pesquisa mais importante do Brasil. A Embrapa pode contribuir muito nessa nova visão de política externa do Brasil.
Quero dizer da minha alegria de ter nessa delegação o nosso querido companheiro Jorge Samek, presidente da Itaipu Binacional. Quero dizer da nossa alegria de termos aqui, não como deputado, mas como empresário, Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional da Indústria brasileira e o nosso querido Roger, presidente da Vale do Rio Doce. O nosso querido Eduardo Dutra, presidente da Petrobrás que, ao inaugurar o escritório da Petrobrás em Pequim, demonstra claramente que a nossa relação será muito duradoura. Quero agradecer também ao ex-ministro Pratini de Morais, que também trabalhou muito para que o Brasil pudesse chegar onde chegou.
Não vou me alongar mais falando de personalidades e autoridades brasileiras porque ainda temos uma pauta de compromissos, mas eu queria, sobretudo, dizer aos brasileiros que vieram comigo que aproveitem para conhecer a China, aproveitem para conhecer o potencial de investimentos que o Brasil tem na China, e aproveitem também para estudar com carinho o potencial de investimento que a China tem no Brasil.
Eu digo sempre que relação comercial é uma via de duas mãos. Obviamente, todos nós sempre queremos vender mais do que comprar, mas é importante que a relação comercial seja equilibrada para que os dois países possam estar contentes e satisfeitos. Todos nós conhecemos, na vida pessoal, que o bom negócio é aquele que contempla os dois, ou seja, quem compra e quem vende. E eu acho que nós precisamos estar preparados para comprar e para vender porque essa relação com a China é, definitivamente, uma relação estratégica. Eu acho que China e Brasil só têm a ganhar com o aperfeiçoamento das nossas relações.
Eu queria dizer que está entre nós uma pessoa que possivelmente seja muito conhecida do povo brasileiro mas, certamente, não é menos conhecida do povo da China, a nossa querida Lucélia Santos que, como no Brasil, marcou presença na China com a novela Escrava Isaura. Me disseram que os chineses conheciam duas pessoas importantes no Brasil: o Pelé e Zola, que é como tratavam a escrava Isaura.
Gostaria inicialmente de manifestar minha satisfação em ver tantos empresários chineses e brasileiros reunidos nesta pujante e dinâmica cidade de Xangai.
São encontros como este que farão que nossa parceria estratégica seja mais do que uma realidade política ou diplomática e adquira também substância comercial e econômica.
O intercâmbio de depoimentos e experiências entre os empresários dos dois países abre caminho para novos negócios que impulsionarão investimentos e comércio.
A China é um país de história milenar; o Brasil é uma nação comparativamente jovem; geograficamente estamos distantes. Mas, nos unem os mesmos anseios de desenvolvimento e de justiça social.
Somos dois grandes países em desenvolvimento que procuram integrar-se nas correntes internacionais de comércio e investimento sem abrir mão da autonomia de nossos processos decisórios.
Daí a importância de nossa aliança estratégica – não só para intensificar nosso relacionamento recíproco, mas para modificar as regras injustas que, hoje, presidem o comércio internacional.
Senhoras e senhores empresários,
No ano passado, a China foi o terceiro maior país de destino para as exportações brasileiras.
Soja e minério de ferro têm sido os produtos tradicionais em nossas vendas para este país.
Hoje, a pauta começa a diversificar-se.
Estamos exportando aço, veículos, autopeças, celulose, óleo de soja, suco de laranja e outros produtos de maior valor agregado.
O Brasil é competitivo em uma grande gama de produtos e serviços: da engenharia civil ao software; do etanol à fabricação de aviões.
A China, por sua vez, tem revelado enorme capacidade de adaptar-se a novas circunstâncias, e tem sabido demonstrar a ousadia necessária para investir em novos mercados.
Desejamos dar continuidade aos planos conjuntos de investimento.
Com grande satisfação, concluímos, em Beijing, um entendimento para facilitar investimentos chineses na recuperação e expansão de parte da malha ferroviária brasileira.
Vi, também com grande alegria, que muitas das empresas aqui representadas estão levando adiante projetos de empreendimentos conjuntos em áreas variadas, como as da siderurgia, da exploração de petróleo, da produção de alumina e de bens de consumo diversos.
Celebro também os avanços nos entendimentos para facilitar o fluxo de turistas entre os dois países.
Tive, ontem, a confirmação pelo presidente Hu JinTao que a China concedeu ao Brasil o status de destino turístico autorizado.
As operadoras e agências de viagens darão início prontamente a seus trabalhos para promover o turismo em ambas direções.
Além da importância econômica, o turismo é especialmente valioso como instrumento de aproximação entre povos e culturas.
O conhecimento mútuo permitirá que nossas relações se aprofundem e diversifiquem.
Senhoras e senhores empresários,
Acabo de chegar de Pequim, onde mantive encontro extremamente proveitoso com o presidente Hu JinTao.
Coincidimos, em particular, quanto à importância de pautarmos nossas relações por um conjunto de quatro princípios e objetivos: do fortalecimento da confiança política, em pé de igualdade; o aumento do comércio em bases mutuamente vantajosas; a intensificação da cooperação em foros internacionais e nas negociações multilaterais; e o aprofundamento do conhecimento e do intercâmbio entre as sociedades civis.
Como tive a oportunidade de assinalar em meus contatos em Pequim, com lideranças do setor público e do setor privado, o interesse gerado por esta visita pode ser considerado absolutamente inédito.
Trouxe à China uma delegação integrada por um grande número de ministros, governadores, parlamentares.
Acompanham-me mais de quinhentos empresários.
A imprensa nacional e internacional observa com atenção e expectativa este novo capítulo no relacionamento entre os dois maiores países em desenvolvimento do Oriente e do Ocidente.
Ao celebrarmos 30 anos de relações diplomáticas, chineses e brasileiros se redescobrem com os olhos voltados para um futuro de crescente cooperação.
Repito, aqui, o que afirmei ao Presidente desta grande nação: China e Brasil não possuem contenciosos de qualquer espécie, seja no plano político, seja no econômico.
Juntos, podemos somar esforços e trabalhar pelo nosso desenvolvimento em absoluta liberdade.
É neste espírito que conclamo os empresários, aqui reunidos, a explorarem plenamente as complementaridades entre nossas economias e aproveitarem as oportunidades que se abrem.
Estou certo de que todos os empresários presentes saberão desfrutar desta que é a maior missão empresarial brasileira jamais organizada em torno da viagem de um presidente da República ao exterior.
Este encontro é histórico. Dará uma inestimável contribuição para a construção desta nova e promissora era de nossa parceria estratégica.
Só me resta agradecer a todos pela presença, transmitir aos nossos amigos chineses todo nosso apreço, e desejar bons negócios!
Meus amigos e minhas amigas,
Amanhã estarei de partida para uma nova missão, não menos importante do que a outra que já realizamos. Amanhã vamos a Guadalajara, onde ocorrerá o encontro entre os representantes da América Latina e da União Européia. Estamos torcendo para darmos passos importantes para o aprimoramento das relações União Européia-Mercosul e, quem sabe, esse passo seja também tão importante quanto o que estamos vendo agora.
Mas saio da China com a certeza de que fizemos um extraordinário negócio ao acreditarmos em nós mesmos e, depois, acreditarmos na nossa relação estratégica com a China.
O que nós vimos aqui certamente mexeu com a consciência e com o coração dos empresários e das empresárias brasileiras. Um país com 1 bilhão e 300 milhões de habitantes; um país com crescimento, já há alguns anos, de mais de 7%; um país que diminui rapidamente o nível de pessoas que vivem na linha da pobreza e um país que se apresenta para o mundo como uma das economias mais poderosas para os próximos anos, merece de nós, brasileiros, um carinho todo especial.
Estou dizendo isso para concluir, chamando a atenção dos empresários brasileiros. Desde que tomamos posse, tomamos a decisão de procurar novos parceiros, de tentar estabelecer uma relação com países que têm muita similaridade conosco, e a China tem essa similaridade, inclusive no campo científico e tecnológico.
O Brasil não quer continuar sendo um mero exportador de soja e minério de ferro. Nós chegaremos a atingir a perfeição na relação comercial com a China quando estivermos exportando e importando conhecimento, quando estivermos exportando e importando tecnologia de ponta, quando estivermos ajudando, numa atuação conjunta, a mudar as regras na Organização Mundial do Comércio.
Por isso, saio deste encontro olhando na fisionomia de cada empresário, de cada investidor, de cada político brasileiro ou chinês, dizendo a vocês que essa aliança não tem volta. Certamente, teremos algumas pessoas no mundo torcendo para que essa aliança não dê certo. Mas, certamente, se somarmos 1 bilhão e 300 milhões de chineses, 178 milhões de brasileiros e, quem sabe, outros milhões de seres humanos do Terceiro Mundo que torcem para que alianças como essas sejam feitas com outros países, eu não tenho dúvida de dizer para vocês que os que estão torcendo a favor são em número muito maior do que aqueles que possam torcer contra.
O Brasil tem potência e tem competência para fazer isso com outras nações, porque nós temos certeza de que o Brasil pode ocupar um espaço de destaque no mundo e fazer novas parcerias como esta que estamos fazendo aqui. Porque a China precisa, porque o Brasil precisa; porque os chineses acreditam, porque os brasileiros acreditam; porque os chineses têm competência e porque nós temos competência e, por isso, o resultado não poderia ter sido diferente.
Saio daqui com a convicção de que essa viagem foi primorosa do ponto de vista do sucesso alcançado. E olhe que ainda estamos plantando muitas coisas, já estamos colhendo algumas, mas estamos plantando outras que, certamente, nos próximos anos outros virão para colher.
Boa sorte, bons negócios e que tenhamos toda a felicidade do mundo.
Muito obrigado.

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