Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no encerramento do seminário – Pequim-China, 24/05/2004

Senhor Hui Liangyu, Vice-Primeiro-Ministro da China
Embaixador Celso Amorim, Ministro das Relações Exteriores,
Senhor Luiz Fernando Furlan, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,
Senhor Roberto Rodrigues, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
Senhora Dilma Roussef, Ministra de Minas e Energia,
Senhor Guido Mantega, Ministro do Planejamento,
Senhor Eduardo Campos, Ministro da Ciência e Tecnologia,
Senhor Walfrido dos Mares Guia, Ministro do Turismo,
Senhor Wan Jifei, Presidente da CPPIT,
Senhor Geraldo Alckmin, Governador de São Paulo,
Senhor Blairo Maggi, Governador do Mato Grosso,
Senhor Wellington Dias, Governador do Piauí,
Senhor Jorge Viana, Governador do Acre,
Senhor José Orcírio de Miranda, Governador do Mato Grosso do Sul,
Senador Eduardo Siqueira Campos,
Senhor Fan Xiaojian, Vice-Ministro da Agricultura,
Senhora Ma Xiuhong, Vice-Ministra do Comércio,
Deputada Telma de Souza,
Deputado Ricardo Rique,
Deputado Carlos Melles,
Deputado Zezeu Ribeiro,
Deputado Carlito Merss,
Deputado Paulo Rocha,
Deputado André Zacharow,
Deputado Henrique Fontana,
Deputado Miguel de Souza,
Deputado Renato Casagrande,
Embaixador Jiang Yuande, embaixador da China em Brasília,
Embaixador Afonso Celso de Ouro Preto, embaixador do Brasil em Pequim
Senhoras e senhores empresários da China e do Brasil,
Senhoras e senhores,

Antes de ler o meu pronunciamento eu queria dizer da alegria imensa que estou sentindo neste momento, de poder estar, aqui, na China, quando estamos comemorando 30 anos de relações internacionais. Mais feliz, ainda, porque em nenhum momento da história do meu país uma viagem despertou tanto a atenção da imprensa e dos empresários brasileiros como esta viagem para a China. Por isso eu peço aos empresários brasileiros, eu sempre dou um recado: a China é uma espécie de shopping de oportunidades para se fazer bons negócios, para comprarmos, para vendermos, para fazermos parcerias no Brasil e parcerias na China. Portanto, esse comércio, neste começo do século XXI, vai exigir de nós mais ousadia, mais teimosia, mais criatividade e, eu diria, mais vontade de vencer pelas nossas próprias pernas e pela nossa própria capacidade. Por isso eu estou alegre de estar aqui, de ver tanto entusiasmo, de ver tanta alegria e otimismo estampados na fisionomia de cada um de vocês.
Esse vídeo institucional que passou aqui é apenas uma pequena parte daquilo que somos capazes de fazer. É apenas uma pequena parte daquilo que é a criatividade, a inteligência, e a capacidade empreendedora e produtiva do povo brasileiro.
Não tenho nenhuma dúvida de que a partir desta nossa visita, a partir deste encontro, a partir dos encontros que teremos em Xangai, eu penso que nós estaremos consolidando, definitivamente, uma das mais sólidas relações políticas, comerciais, culturais e econômicas que o Brasil já teve neste continente.
Eu espero que os empresários brasileiros e todas as pessoas do meu governo tenham para com a China o mesmo carinho que a China tem demonstrado para com o Brasil. Relações comerciais e relações políticas serão muito mais sólidas se nós tivermos uma relação de confiança e uma relação humana perfeita.
Nem a Internet, nem o mais sofisticado computador do mundo substitui um olhar, um aperto de mão e um gesto de confiança. Por isso a presença de todos vocês aqui é a mais sólida consolidação de que essa relação veio para ficar.
Ontem, participei do ato de inauguração do escritório da Petrobras, pelo que ela significa para nós brasileiros, pelo que ela significa para a economia e para a história do Brasil. Se a Petrobras está com esse grau de confiança com a China não há porque outro setor da economia brasileira não ter a mesma confiança, por isso eu estou feliz por retornar à China, desta vez como presidente da República do meu país.
Este é um país que encanta a humanidade. Desde o primeiro dia de meu governo, ainda em meu discurso de posse, anunciei que a China seria prioridade nas relações externas do Brasil.
Trouxemos a este país a maior missão empresarial jamais organizada para um evento desta natureza. Com convicção e determinação, estamos transformando nosso comércio exterior. Os empresários que me acompanham são testemunhas e partícipes da conquista de mais este marco nas relações externas do Brasil.
Agradeço e saúdo os chineses presentes a este encontro empresarial. Aqui estão reunidos autoridades governamentais, empresários, acadêmicos, formadores de opinião, enfim, todos aqueles que se interessam pelo Brasil e pelo estreitamento das nossas relações.
Brasil e China têm muito em comum.
Compartilhamos o mesmo objetivo de integrar nossas economias, de forma competitiva, ao mercado globalizado do século 21. Mas procuramos vencer esse desafio sem deixar de lado nossas obrigações com o desenvolvimento econômico e social de nossos respectivos países.
A integração no mercado global é importante, mas também é importante fazer com que esse processo garanta a inclusão de todos. Crescimento econômico só faz sentido se for acompanhado de justiça social.
A China sempre se pautou por essa premissa. Hoje, é com admiração que o mundo vem acompanhando o resultado que alcançou nas suas políticas econômicas e sociais. O êxito chinês abre agora enormes possibilidades de cooperação com os parceiros externos. Por isso ela está no centro das atenções do mundo neste início de século. Brasil e China comemoram 30 anos do estabelecimento de relações diplomáticas. Celebramos esse aniversário com grande alegria. Soubemos trabalhar para o desenvolvimento desta relação.
Hoje, temos uma relação política sólida, um comércio crescente e diversificado, uma corrente próspera de investimentos mútuos e conquistas importantes no campo da ciência e da tecnologia. Mas há muito mais por fazer.
Brasil e China estão desenvolvendo uma parcela estratégica, diria mesmo exemplar, entre países em desenvolvimento.
No âmbito do comércio bilateral, a China tornou-se, em 2003, o terceiro maior mercado de destino para as exportações brasileiras e o quinto maior supridor de produtos importados pelo Brasil.
Nos últimos anos, o comércio bilateral tem apresentado excepcional crescimento, passando de 1,5 bilhão de dólares, em 2000, para 8 bilhões de dólares em 2003. Este é um dado que fala por si só.
Ao que tudo indica, 2004 será um ano com números ainda mais animadores. De janeiro a março deste ano, o intercâmbio entre os dois países já teve um aumento de cerca de 60% em relação a igual período de 2003. E esse aumento envolve não apenas produtos tradicionais, mas também reflete expressiva diversificação da nossa pauta de comércio.
No caso das exportações brasileiras, vemos com satisfação que, para além da soja e do minério de ferro, estamos também vendendo produtos de maior valor agregado, como laminados de aço, automóveis, autopeças, óleo de soja, celulose, máquinas e instrumentos mecânicos, suco de laranja e outros.
Mas é fundamental continuarmos as conversações bilaterais para que o Brasil possa satisfazer a demanda chinesa em outros setores.
No caso dos produtos agroindustriais, como a carne, por exemplo, o avanço nos entendimentos sanitários e fitossanitários permitirá a abertura de novas oportunidades.
O Brasil assumiu, em 2003, a condição de maior exportador mundial de carne bovina, o que provocou a sanidade e a qualidade da carne brasileira.
No âmbito dos produtos industrializados, não poderia deixar de mencionar o etanol. Sabemos que a China está firmemente empenhada em desenvolver um programa voltado para a utilização do etanol como fonte alternativa de energia.
O Brasil tem uma experiência única nesse campo e está pronto a cooperar com a China na transferência de conhecimentos no campo da produção e comercialização do produto, bem como na adaptação e montagem dos motores para veículos.
É igualmente promissor o intercâmbio na área dos investimentos. Há alguns anos, várias empresas brasileiras já se instalaram na China. Outras estão por vir. No sentido inverso, muitas empresas chinesas estabeleceram-se no mercado brasileiro e o sucesso de suas operações estão estimulando outras a fazerem o mesmo.
Do lado dos investimentos brasileiros realizados na China, não poderia deixar de destacar a decisão da Embraer de associar-se com a empresa aeroespacial chinesa AVIC II para produzir e comercializar, neste país, aviões de passageiros de alcance regional. Esse empreendimento muito nos orgulha. Ele é emblemático de uma parceria Sul-Sul na área empresarial.
Entre os grandes projetos de cooperação bilateral, também merece ser destacada a criação da empresa Baovale, formada pela Companhia Vale do Rio Doce e pela Baosteel, com vistas à ampliação da produção brasileira de aço. Esse investimento é superior a 1 bilhão de dólares.
Outra grande empresa brasileira, a nossa Petrobras, também está desenvolvendo ações de parceria com diversas companhias estatais chinesas, em particular a Sinopec, para exportação de petróleo, a exploração do produto em terceiros mercados e o intercâmbio de conhecimento na tecnologia de processamento do xisto.
Com satisfação, saudamos a abertura do escritório da Petrobrás em Beijing.
No campo da ciência e tecnologia, também estamos dando uma demonstração de parceria modelar. Construímos e lançamos dois satélites, com a mais moderna tecnologia.
Estamos caminhando agora para o terceiro satélite e para o aprofundamento da cooperação na comercialização e cessão das suas imagens a terceiros países, bem como na produção de diversos aplicativos no setor aeroespacial.
Caros amigos,
Há um setor no qual estamos desenvolvendo novas parcerias, das quais muito me orgulho. É o caso dos entendimentos para facilitar e ampliar o intercâmbio de turistas entre Brasil e China, que terão também um impulso decisivo a partir desta visita.
Mais de 40 empresários do setor de turismo me acompanham nesta viagem, com o intuito de encontrar seus homólogos chineses para tratar das ofertas disponíveis para grupos de turistas.
O turismo também ajuda a aumentar o conhecimento mútuo. Tem uma dimensão humana e cultural que transcende seus aspectos econômicos.
Senhoras e senhores,
A relação que estamos construindo com a China pauta-se pelo respeito mútuo e pela multiplicação dos contatos entre nossas respectivas realidades.
Ambos os países se aparelham para tirar o melhor proveito dessa relação, seja no campo econômico-comercial, seja no campo da cultura e das artes, seja no campo da ciência e tecnologia, seja no campo das políticas voltadas para o desenvolvimento social.
Trinta anos depois do estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e a República Popular da China, intensificam-se nossas relações econômico-comerciais e políticas. Estamos no caminho certo. Aproveitamos as grandes oportunidades que se abrem para o incremento das trocas e para uma cooperação mais abrangente.
É chegada a hora de consolidarmos, em definitivo, uma parceria estratégica entre nossos países. Queremos dar um salto qualitativo nessa relação estratégica. Queremos uma parceria que integre nossas economias e sirva de paradigma para a cooperação Sul-Sul.
É dentro desse espírito de otimismo e confiança que faço votos ao contínuo desenvolvimento das relações de comércio e amizade entre nossos povos.
Eu quero terminar dizendo a vocês que a relação entre China e Brasil é uma relação que só tende a crescer no campo da cultura, só tende a crescer no campo comercial. E por que só tende a crescer? Porque se vocês prestarem atenção, o Brasil não tem contenciosos do passado, não tem contenciosos históricos, e dois gigantes como China e Brasil, sem contenciosos históricos, sem divergências históricas, estarão livres para pensar apenas no futuro. E vocês significam esse futuro de China e Brasil.
Muito obrigado.

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