Meu querido amigo e governador do estado do Amazonas, Eduardo Braga e sua esposa, Sandra Braga,
Minha querida companheira Marisa,
Ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento,
Ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef,
Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias,
Companheiro José Eduardo Dutra, presidente da Petrobrás,
Deputados federais Carlos Souza, Francisco Garcia, Humberto Michilis, Gilberto Ramos e Silas Câmara,
Meus companheiros e companheiras,
Deputado Sinésio,
Desembargador Ubirajara de Morais, presidente do Poder Judiciário em exercício,
Senhor Luiz Alberto Carijó, prefeito de Manaus,
Deputado estadual Ronildo Braga,
Meus companheiros que trabalham com o programa Fome Zero,
Meus amigos empresários – homenageando o Brian Smith, eu gostaria de homenagear os empresários que assinaram, aqui, o protocolo para a construção de restaurantes,
Meus amigos e minhas amigas,
Durante muitos anos eu maturei, na minha cabeça, a idéia de que a fome só seria combatida, no Brasil, com o vigor que precisa ser combatida, se nós conseguíssemos transformá-la do problema social que é para um problema político.
E transformar a fome de um problema social para um problema político não é pedir para que os famintos se filiem a um partido político. É fazer com que a sociedade que manda, a que governa, a que come, possa ter sensibilidade para com a questão da fome, que é um direito elementar – previsto em todas as Constituições, no Estatuto dos Direitos Humanos da ONU, na Bíblia e no coração de cada um de nós, que ainda não perdemos o sentido da solidariedade e da fraternidade.
Quando começamos a campanha da fome não faltaram, no Brasil, os incrédulos – aqueles que não acreditam em nada e que não fazem nenhum movimento para que as coisas comecem a acontecer.
Nós começamos com o programa Fome Zero, em março, e no mês de setembro nós já tínhamos atingido 2.300 municípios no Brasil, atendendo 2 milhões e 100 mil famílias. Já tínhamos, pela primeira vez na História do Brasil, assumido a responsabilidade de garantir aos pequenos produtores rurais do semi-árido nordestino – uma das regiões mais pobres do país, e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que nós compraríamos toda a produção deles, se não houvesse mercado para venderem os seus produtos.
E, graças ao compromisso que nós assumimos, pela primeira vez o mercado elevou o preço e nós não precisamos comprar, porque os produtores conseguiram vender para os comerciantes, na sua própria cidade.
Da mesma forma, assumimos o compromisso de, nas regiões mais pobres do país, adquirir leite para que pudéssemos garantir uma melhor nutrição para as crianças brasileiras, porque se uma criança tiver problema de alimentação até os seis anos de idade, certamente poderá ficar com seqüelas irrecuperáveis para o resto da vida.
E nós sabemos que o Programa de combate à fome não é um fim em si mesmo. Ele é um meio, é uma emergência, porque vamos combater a fome, definitivamente, no dia em que cada homem, cada mulher, no Brasil e no mundo, conseguir ganhar o seu dinheiro às custas do seu trabalho, que é o que dá dignidade a um ser humano, e não políticas compensatórias do Governo.
Entretanto, nós não podemos esperar que a economia volte a crescer e a gerar os empregos como nós queremos, para todos aqueles brasileiros que precisam trabalhar ou comer, porque são, no total, 11 milhões de famílias que não conseguem comer as calorias e as proteínas necessárias para a sua sobrevivência.
Criamos um Programa. A partir de setembro, juntamos o programa Fome Zero com outros programas e criamos o Bolsa Família. E, hoje, posso dizer para vocês que estou orgulhoso porque terminamos, no dia 31 de dezembro do ano passado, com 3 milhões e 615 mil famílias recebendo o Bolsa Família em todo o território nacional.
Agora, no mês de junho, teremos mais 901 mil famílias, que serão escolhidas entre as famílias das regiões metropolitanas do Brasil. Até dezembro, chegaremos a 6 milhões e meio de famílias. E, se Deus quiser, em dezembro de 2006, nós teremos 11 milhões de famílias carentes neste país recebendo o Bolsa Família, para garantir a eles o direito à ração mínima para poder sobreviver.
Para quem come todo dia, toma café, almoça e janta, parece que isso não é nada. Mas, para quem se levanta, de manhã, e vê uma criança pedir um pedaço de pão e não ter para dar ou, chegar o final de semana e ver um monte de filhos agarrados no rabo da saia da mãe pedindo alguma coisa para comer e não ter, sabe que garantir o alimento necessário é importante para que as pessoas possam conquistar outras coisas.
O Bolsa Família transformou, na verdade, a política de transferência de renda no Brasil. Até dois anos atrás, se se somassem todos os programas sociais do Governo anterior – Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Vale Gás – daria, em média, por família, 22 reais por mês. O Bolsa Família está dando, em média, 73 reais para cada família, três vezes mais do que a família recebia. E, se Deus quiser, vamos criar as condições para fazer mais transferência de renda.
E esta minha presença aqui, além de anunciar que a Petrobrás vai, finalmente, cumprir uma dívida que muitos outros governantes prometeram e não fizeram – que é o gasoduto Urucu-Coari-Manaus, para que a gente possa garantir o desenvolvimento de uma região extraordinária como esta, que não pode ser transformada apenas pelas pessoas de outros países e de outros estados, como se fosse apenas um santuário da Humanidade, intocável, sem levar em conta que aqui tem cinco milhões de homens e mulheres que precisam trabalhar e comer e que essa energia pode nos possibilitar ter um modelo de desenvolvimento sustentável, em que a preservação do meio ambiente passe a ser uma fonte de atração de novos investimentos e para que a Amazônia cresça e dê dignidade aos milhões de homens e mulheres que moram aqui.
Da mesma forma que quando defendemos a manutenção da Zona Franca de Manaus, prorrogando até 2023, era por nunca compreender aqueles que criticavam os benefícios que a Zona Franca de Manaus recebia. Aqueles que criticavam só podem fazer parte daqueles que conhecem o Amazonas apenas pelo mapa, mas que nunca botaram o pé aqui para ver o que a Zona Franca de Manaus trouxe de desenvolvimento para esta região.
E mais ainda. Além da relação extraordinária com o estado do Amazonas e com o nosso governador, agora o Amazonas tem o privilégio de ter um ministro dos Transportes. E vocês sabem que, muitas vezes, um dos problemas do estado do Amazonas e da região Norte é exatamente o direito do escoamento dos produtos e das pessoas aqui desta região. Podem ficar certos, nós estamos apenas há um ano e três meses e meio no Governo, nós sabemos de tudo o que prometemos, sabemos de tudo que podemos fazer e, cada vez mais, estou com a consciência tranqüila e cada vez mais otimista de que nós vamos cumprir cada uma das coisas que nós prometemos, sem a pressa dos apressados, mas com a cautela de quem sabe que os passos só podem ser dados do tamanho que as nossas pernas alcançam.
E quando nós falamos isso, falamos pelo que estou vendo aqui do palanque. Há algum tempo, era humanamente impossível imaginar que a gente ia ter um conjunto de empresários que fosse se sensibilizar pela campanha de combate à fome. E hoje não é apenas um, são milhares de empresários pelo Brasil afora que assumiram a responsabilidade e entenderam que essa tarefa não é apenas do Estado. E que eles, enquanto pessoas jurídicas ou pessoas físicas, podem fazer alguma para minimizar o sofrimento dos seres humanos aqui.
Uma vez, eu recebi o meu chefe de gabinete dizendo: “tem um tal de Brian Smith, da Cola-Cola, que quer conversar com você sobre restaurante popular”. Eu marquei. Aí, o Brian foi lá, convincente, com o primeiro restaurante inaugurado em Porto Alegre, e disse a mim: “Presidente, em todas as cidades onde a Coca-Cola tiver uma fábrica nós vamos construir um restaurante.” E eu disse ao Brian: todo restaurante que você construir, eu vou lá participar da inauguração – não pela quantidade de gente que vai almoçar, não pela quantidade de pessoas que vão ser atendidas, mas pelo gesto simbólico que gente pode mostrar para outros milhares de empresários – que são tão bons quanto o Brian – como esses companheiros que assinaram aqui o compromisso, e que muitas vezes querem se aproximar e não têm canal de aproximação.
Nós, quando lançamos o programa Fome Zero, sabíamos que a solidariedade e que o “falar com o coração” da nossa gente ainda valem a pena porque nós somos um povo de muito sentimentos.
Eu me lembro, quando fui convidado para o encontro de presidentes dos principais países do mundo, dos 20 principais países do mundo, em Evian, na França, que quando cheguei lá estavam o presidente Bush, o presidente Fox, o Tony Blair, o Schröeder, da Alemanha, os presidentes da Índia, da China, do Japão – aquelas personalidades que eu imaginava que nunca ia encostar perto, afinal de contas, “quem somos nós”, do Brasil… de repente, eu estava ali. E, de repente, eu descobri uma coisa: somente eu poderia falar da fome naquela reunião. De repente, eu descobri que era possível transformar a fome não num problema apenas brasileiro, mas num problema mundial, de países que têm gente que passa mais fome do que o nosso, como muitos países no mundo asiático e no continente africano. E levantei, pela primeira vez, a questão da fome. Estou convocando uma reunião para setembro – já enviei cartas para todos os presidentes dos países do mundo e primeiros-ministros –quando a ONU reabre seus trabalhos, para que possamos aprofundar a questão da fome.
Fiz, em Genebra, uma reunião com o presidente Chirac e o presidente Lagos para discutir que espécie de fundo que nós vamos criar para combater a fome no mundo. E tem vários tipos de fundos.
Por exemplo, nós poderíamos taxar os “paraísos fiscais”; nós poderíamos taxar as exportações de armas; nós poderíamos criar um fundo que, quem sabe, não servisse para dar comida, mas para se investir em desenvolvimento, sobretudo na agricultura, nos países mais pobres do planeta Terra.
A única coisa que eu posso dizer para vocês é que estou feliz de estar inaugurando mais um restaurante. E mais feliz ainda estou, porque fico sabendo que vai ser feito, só para começar, aqui, em Manaus. E fico mais feliz ainda de saber que nós estamos mexendo com mentes e corações de muita gente no mundo, com a questão da fome.
Tenho fé em Deus – temos, ainda, dois anos e sete meses de mandato – todos os presidentes do mundo, agora mesmo, no dia 22, estarão indo para a China e, lá, todos os que participarem comigo vão ter que ouvir falar um pouquinho de fome. Porque todo mundo sabe falar de todos os assuntos, mas o problema mais grave – que envolve mulheres e crianças, onde inocentes morrem sem ter um jeito de reclamar – que é o direito à comida, essa oportunidade eu não perderei em lugar nenhum do mundo.
Não apenas, companheiro Patrus, porque sou o presidente da República mas porque, antes de tudo, sou um ser humano que aprendeu, desde pequeno, a saber o que é fome. E somente quem passou por isso sabe o que é passar fome.
Por isso, isto virou um compromisso. Aqui, no Brasil, já vamos cuidar. E eu espero que tenhamos forças para convencer outros países do mundo. Tenho pedido ao movimento sindical brasileiro: mandem cartas para todos os sindicatos no mundo, pedindo para que esses sindicatos pressionem os seus governantes; tenho conversado com as ONGs: mandem cartas para todas as ONGs do mundo, pedindo para que elas pressionem os seus governantes; tenho conversado com a igreja católica e com a Igreja evangélica: mandem cartas para todas as Igrejas do mundo para que, em cada lugar, cada um pressione o seu governante, para que a gente possa construir a possibilidade de, um dia, todos nós acordarmos e termos a certeza que todas as pessoas vão tomar café, almoçar e jantar naquele dia.
Muito obrigado.

23/04/2004



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