Declaração à Imprensa do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por ocasião da visita do Presidente de Governo da Espanha, José María Aznar – Brasília, Palácio Itamaraty, 29/10/2003

É com grande satisfação que recebo no Brasil o presidente de Governo da Espanha, José María Aznar, um antigo amigo do Brasil. Essa visita de trabalho teve um objetivo muito prático. Discutimos passos concretos para ampliar um relacionamento que já figura entre os mais importantes do Brasil. Um relacionamento que já conta com um importante patrimônio histórico e cultural comum e que ganhou novo impulso durante a visita de Estado que realizei, em julho, à Espanha, por convite de Sua Majestade, o Rei Juan Carlos. Naquela ocasião, tratamos de vários temas de interesse comum, nos âmbitos bilateral, regional e internacional.

Hoje, nós aprofundamos esse diálogo, e saímos de nossa reunião de trabalho com a certeza de que os laços entre os dois países podem ser ampliados ainda mais.

Pudemos confirmar que as relações entre o Brasil e a Espanha passam, de fato, por fase de excepcional intensidade. Nos últimos quatro meses, tivemos vários contatos de alto nível. Além de minha visita à Espanha, tive a honra de receber em Brasília Sua Majestade a Rainha Sofia, que participou do III Fórum Internacional do Microcrédito, no início de outubro. Há poucos dias, estive na cidade de Oviedo, onde recebi o Prêmio Príncipe de Astúrias de Cooperação Internacional.

Passamos em revista todos os campos – político, cultural, econômico e tecnológico – em que vêm prosperando iniciativas importantes entre nossos dois países. Abordamos, por exemplo, formas de impulsionar ainda mais nosso já vigoroso relacionamento econômico. A Espanha é hoje o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil. Esperamos que essa presença possa ser ampliada na medida em que a economia brasileira retome o caminho do crescimento e mereça cada vez mais a confiança da comunidade financeira internacional.

Queremos que o mesmo dinamismo marque nossas trocas comerciais, que ainda estão longe do potencial das duas economias. Exploramos, por exemplo, formas para aumentar a participação de pequenas e médias empresas no comércio bilateral, com o apoio de bancos espanhóis e brasileiros.

Examinamos, igualmente, meios de diversificar nossas pautas de exportações. As exportações brasileiras, em particular, são dependentes de alguns poucos produtos tradicionais. Vamos explorar essas e outras idéias no Fórum Empresarial Mercosul-União Européia, em Brasília, que encerraremos hoje à noite. Contamos com o empenho de nossos empresários para encontrar formas inovadoras de alcançar esses objetivos.

Para assegurar a continuidade dessas iniciativas, tenho a satisfação de anunciar, conforme decidimos durante minha visita à Espanha, a instalação de dois grupos de trabalho: o primeiro, sobre investimentos e marco regulatório; o segundo, sobre questões comerciais. Os grupos se reunirão a cada seis meses, a começar pelo primeiro semestre do próximo ano.

Concordamos que a cooperação bilateral tem papel decisivo nesse contexto. Ela oferece oportunidades para formar verdadeiras parcerias, unindo criativamente os conhecimentos técnicos e a experiência de instituições públicas e privadas de nossos países. Identificamos potencial para um trabalho colaborativo nas áreas mais variadas, como no turismo, agricultura de irrigação e educação. Nos campos da pesca e aqüicultura, já estamos desenvolvendo projetos conjuntos.

Nesse particular, tenho muito prazer em verificar que, na reunião de julho da Comissão Mista de Cooperação, as delegações dos dois países estabeleceram que os programas bilaterais não poderão deixar de levar em conta as necessidades sociais básicas, o investimento no ser humano e o fomento da participação social.

A fim de impulsionar ainda mais nossos laços, o Presidente Aznar apresentou uma abrangente proposta para balizar o futuro das relações entre Brasil e Espanha. O Governo brasileiro saúda a iniciativa e decidiu criar uma Comissão Interministerial para analisar todos os aspectos da proposta, que nos ajudará a explorar o imenso potencial de nosso relacionamento. O resultado dessa avaliação será examinado, num breve prazo, entre as duas Chancelarias.

Tivemos também oportunidade de dialogar sobre os grandes temas da atualidade regional e internacional e sobre os desafios do quadro de insegurança em que o mundo vive hoje. Discutimos, em especial, os processos de aproximação entre a América Latina e Caribe e a União Européia, e as negociações comerciais internacionais, em especial, entre o Mercosul e União Européia.

Abordamos, ainda, a próxima Cúpula Ibero-Americana, a que vamos comparecer em meados de novembro. A confirmação de sua realização, em Santa Cruz dela Sierra, demonstra a solidariedade de toda a comunidade ibérica com o povo boliviano. Será, sobretudo, uma oportunidade para o fortalecimento institucional da cooperação ibero-americana e para procurar respostas para o desafio de promover o crescimento econômico com justiça social.

Examinamos, por fim, o processo de integração sul-americana, em particular na área de infra-estrutura, e as oportunidades que se abrem à participação de capitais espanhóis. A presença privilegiada que empresas espanholas já têm em campos estratégicos da economia da América do Sul faz da Espanha e de seus empresários parceiros naturais nessa empreitada.

Por todas essas razões, os contatos que mantive hoje com o Presidente Aznar reforçam a certeza de que Brasil e Espanha são, hoje, parceiros estratégicos. Estamos convictos de que esse espírito de parceria prevalecerá nas iniciativas que nossos países perseguirão em benefícios de seus povos.

Eu queria dizer ao presidente José María Aznar que a alegria de recebê-lo no Brasil é muito grande. Primeiro, pela cordialidade e pela delicadeza com que a minha delegação foi recebida, quando da minha visita como Chefe de Estado na Espanha, a convite do Rei Juan Carlos.

Naquela ocasião, pude ter conhecimento da disposição política, dos compromissos e do caráter do homem público José María Aznar que, de pronto, de forma muito objetiva, disse-me que gostaria que a relação da Espanha com o Brasil se transformasse numa relação estratégica para os dois países.

Hoje, no Brasil, o presidente Aznar não só repete o discurso que fez naquela ocasião, da definição estratégica da relação Brasil-Espanha, como nos traz um texto, numa proposta de acordo, num protocolo que vamos discutir com os nossos Ministros aqui, no Brasil; e que esperamos, no dia 15 do próximo mês, em Santa Cruz dela Sierra, assinarmos um protocolo definindo melhor, aprimorando, aperfeiçoando e consolidando uma relação estratégica entre Espanha e Brasil.

De forma que quero dizer ao Presidente Aznar que a minha alegria, certamente, é a alegria do povo brasileiro; a minha alegria, certamente, é a alegria de todos os meus ministros. Porque o Governo espanhol, porque os empresários espanhóis e, porque não dizer, pelo que eu presenciei nas Astúrias. O carinho do povo espanhol com o povo brasileiro é algo que eu não imaginava que pudesse acontecer tão rapidamente e num curto espaço de tempo.

E a nossa relação só tende a ser aprimorada, porque o governo brasileiro pretende fazer o que for necessário para que possamos atrair mais empresas espanholas para investir no Brasil e, quem sabe, num curto espaço de tempo, convencer as empresas brasileiras a não terem medo de virarem empresas multinacionais e começarem a investir na Espanha.

Portanto, meu caro Presidente Aznar, muito obrigado pela sua presença, mais uma vez

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