Palavras do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita ao Parlamento Regional do Principado de Astúrias – Oviedo, Espanha, 24/10/2003

Vim participar da entrega do Prêmio Príncipe de Astúrias por algumas razões. A primeira é que eu estou certo e convencido de que a questão da pobreza e da fome só pode ser levantada, com muita força, pelas pessoas que comem.

Houve um tempo, no começo da minha militância, em que eu dizia que quando um povo não queria lutar, tinha que passar fome para aprender. Depois, descobri que a fome não leva nenhum povo à revolução, mas à submissão.

Os famintos são um grande problema social. E eu queria transformar a fome em um grande problema político. Apenas quando se transforma a fome em um problema político todos nós prestamos atenção.

Lutar contra a fome não é uma tarefa fácil. As pessoas têm vergonha de dizer que têm fome, estão desorganizadas e muito debilitadas.

Acredito que vai ser possível, nos próximos, anos sensibilizar a humanidade para que enfrente esse problema. É muito menos uma questão econômica, e muito mais ética.

Assumi que esse prêmio não era meu, mas pertencia a milhões e milhões de anônimos que me permitiram chegar à Presidência da República. Também pensei: “O que fazer com um prêmio desses? Depositar na minha conta e, no dia seguinte, ninguém mais se lembra do premiado?” Por isso, tomei a decisão de doá-lo e entreguei ao Secretário-Geral da ONU o cheque que recebi da Fundação – para tentar sensibilizar outros governantes para que contribuam com o Fundo das Nações Unidas, que não tem recursos. Porque Presidentes vão aos encontros internacionais, assumem compromissos com as metas do milênio e, no dia seguinte, não se lembram de nada.

E na minha vida política resolvi fazer as coisas mais difíceis se tornarem realidade. Quando entrei no movimento sindical, era muito difícil fazer sindicalismo no Brasil, por causa do regime militar. Em três anos mudamos a história do sindicalismo brasileiro. Depois, resolvemos criar um partido político. Havia muita gente importante que dizia que não era possível criar um partido político nos moldes que estávamos criando. Vinte anos depois, nós temos o maior partido de esquerda da América Latina. E por força deste partido, eu cheguei à Presidência da República.

Eu estou convencido de que o combate à pobreza, à fome e à miséria precisa de muita persistência. E, na minha opinião, uma palavra-chave para este novo século é a palavra solidariedade, e a palavra ética, a palavra cidadania. O mundo produz alimentos suficientes, riqueza suficiente. Passamos o século passado discutindo os avanços tecnológicos. Neste século, temos que discutir como repartir, de forma mais correta, os resultados da riqueza produzida pela Humanidade. Esse desafio não é apenas político, mas um desafio ético, humanista, cristão.

Todos nós devemos assumir a responsabilidade de transformar essa causa numa causa que nos dê orgulho. Que todas as noites, ao deitarmos em nossas camas, tenhamos um sono tranqüilo porque fizemos bem a um semelhante, a um irmão, a uma irmã que não teve a mesma oportunidade que nós.

No Brasil, temos esse compromisso. O Brasil tem 176 milhões de habitantes, dos quais, 55 milhões não consomem as calorias e as proteínas necessárias para a sobrevivência humana. E nós assumimos o compromisso, ao lançar o programa Fome Zero, de fazer todo o possível para, no final do meu mandato, fazer as pessoas ao menos tomarem café da manhã, almoçar e jantar – que é um direito sagrado que está na Bíblia, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição de todos os povos do mundo. Portanto, não temos que inventar, apenas cumprir as leis.

Quero agradecer a vocês pelo carinho que tenho recebido. Eu vi o carinho do povo nas ruas, o carinho de todos vocês, do Príncipe, do Rei, da Rainha. A Espanha, que tem uma história antiga, vive anos de prosperidade. E vocês conseguiram, com muita luta, com muito sofrimento, chegar a um padrão de vida que dá dignidade ao ser humano. Não tenho dúvida de que vocês vão saber dar a mão para o nosso povo, aquele que ainda não teve essa oportunidade.

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