Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de assinatura do convênio entre Brasil e Paraguai – Foz do Iguaçu – PR, 16/08/2003

Excelentíssimo Senhor Nicanor Duarte Frutos, Presidente da República do Paraguai, e sua senhora Glória,

Meu caro companheiro e amigo, Lúcio Gutierrez, Presidente da República do Equador,

Minha companheira Marisa,

Meus companheiros e companheiras Ministros e Ministras do Brasil,

Excelentíssimos Ministros e Ministras do Paraguai,

Deputados,

Prefeitos,

Meu querido Vice-Governador,

Conselheiros de Itaipu, paraguaios e brasileiros,

Minhas senhoras e meus senhores,

Meu caro Samek e meu caro Ayala,

Confesso que fiquei preocupado, meu caro Nicanor. Não sei se o Presidente do Paraguai e o Presidente do Brasil devem estar felizes ou preocupados, porque o prestígio e a cumplicidade entre Samek e Ayala podem nos causar sérios problemas. Voltarei para Brasília pensando.

Visitar Itaipu é sempre um momento de muita emoção. E eu acabo de constatar que a sua dimensão, que sempre foi fundamental, está se agigantando ainda mais, com as duas novas turbinas.

Em companhia do Presidente Nicanor Duarte Frutos, nosso querido irmão, Presidente do Paraguai, tive a oportunidade de observar a descida do estator de uma dessas unidades geradoras, que estarão completamente instaladas no próximo ano.

Os números de Itaipu, que eu imaginei que o Samek e o Ayala fossem falar, são de uma dimensão gigantesca, e penso que causam inveja a qualquer país do mundo. As duas novas turbinas gerarão um aumento na potência instalada, de 12.600 megawatts, para 14.000 megawatts.

Se hoje, Itaipu responde por cerca de 25% da energia elétrica gasta no Brasil, e aproximadamente 90% da consumida no Paraguai, e nós sabemos que a energia é garantia de desenvolvimento, sem ela, qualquer país do mundo será menos importante e menos desenvolvido.

Esses números são de grande importância para os nossos países, não somente devido a enorme geração de energia elétrica. Itaipu é também um modelo de engenharia política, econômica e diplomática, um modelo de relacionamento entre dois países que podem e devem ser tomados como referência para a integração da América do Sul e da América Latina. Nesse sentido, podemos dizer que Itaipu simboliza o embrião do Mercosul.

Em muitas ocasiões, tenho afirmado o compromisso do meu Governo com o Mercosul e com o fortalecimento da integração política, econômica e cultural do Brasil com todos os países sul americanos.

Integração tem que se materializar, inclusive por meio de uma rede de infra-estrutura física, aproximando cada vez mais os nossos dois países. Este é, portanto, o momento em que gostaria de reafirmar isso.

A integração, Presidente Nicanor, Presidente Lúcio Gutierrez, é muito discutida ao longo da História do nosso continente e eu sou, nesta reunião que estamos fazendo aqui, o mais experiente dos Presidentes que estão aqui. Tenho sete meses de governo, Lúcio deve ter 6 meses de governo e você tem apenas um dia de governo, apenas um dia.

Possivelmente, em pouco tempo, todos nós tenhamos contribuído para a integração da América do Sul, mais do que muita gente que passou muitos anos no Governo do Paraguai, do Equador, do Brasil e de outros países.

Porque como disse muito bem o Presidente Nicanor, há um novo clima no nosso continente, há um novo sonho no nosso continente, há uma realidade de que ou a América do Sul se encontra em si mesma, define as suas prioridades e os seus projetos, e faz com que a integração da América do Sul deixe de ser um discurso em época de campanha política, e façamos a integração física real que o Brasil, o Paraguai e o Equador, tanto precisam e tanto podem contribuir para essa integração.

Mas, para que haja integração é preciso que haja sobretudo vontade política, para que haja integração é preciso que, sobretudo, haja confiabilidade política entre os governantes dos países da América do Sul.

Houve um tempo em que todos os países da América do Sul entendiam que a solução dos seus problemas estava na sua relação com o chamado “mundo desenvolvido”. Ora a Europa, ora os Estados Unidos, ora o Japão. E é verdade que esses países contribuíram muito nas relações com a América do Sul. Mas é verdade, também, que enquanto nós ficamos apenas pensando nos irmãos ricos, nós deixamos de nos preocupar, muitas vezes, em fazer as lições mais elementares que deveríamos ter feito. Como a de construir a infra-estrutura que pudesse garantir a integração objetiva do nosso continente.

E é por isso que, certamente, meu caro Nicanor, um tempo desses eu voltarei a me encontrar com o Presidente do Paraguai, para que a gente possa inaugurar a segunda ponte, ligando o Paraguai ao Brasil.

Eu acredito que, muitas vezes, nós criamos as dificuldades antecipadamente.

Muitas vezes, vamos discutir um projeto qualquer, já falamos que não podemos fazer tal coisa, porque custa muito dinheiro. Nós estamos numa outra época, em que temos que discutir não quanto custa fazer, mas quanto custa não fazer as obras necessárias de infra-estrutura e as políticas sociais que precisamos fazer.

A nossa união e a nossa amizade, essenciais para a boa convivência entre os nossos povos, são também fundamentais para que possamos continuar negociando, cada vez mais, com mais vigor e eficiência, com o resto do mundo. Por isso, eu não acredito que haja saída individual para qualquer país da América do Sul.

Ou nós pensamos enquanto um conjunto de países que compõem uma força política e um conjunto de interesses e, a partir daí, negociar coletivamente com os países ricos ou, possivelmente, a América Latina continuará, mais um século, pobre e sendo referência de onde milhões e milhões de pessoas não têm sequer o que comer.

E nós começamos a dar um sinal, agora. Essa assinatura, feita entre o nosso Ministro da Educação e a Ministra da Educação do Paraguai, para a criação da Bolsa-Escola e atender 600 pessoas, é um exemplo importante. Esse outro protocolo assinado, entre o Brasil e o Paraguai, para um programa chamado “Pesca e Pescador” também é muito importante, e é apenas o começo de duas coisas que começamos a fazer. Nós ainda temos, Presidente Nicanor, todo o tempo do mundo para fazer aquilo que nós sonhamos fazer entre Paraguai e Brasil.

Muitas vezes, os pessimistas dizem que o Rio Paraná dividia o Brasil do Paraguai. E, hoje, nós temos que afirmar que Deus é mais sábio do que muitos de nós pensamos. É verdade que Ele fez o rio, possivelmente para lavar a alma daqueles que exploraram tanto a nossa gente, mas é verdade também que Ele nos ensinou a nadar para que o rio não fosse um obstáculo da integração Brasil e Paraguai.

Mas é verdade também que Ele criou gente inteligente e competente, que foi capaz de, através de uma engenharia fantástica como esta que foi colocada aqui, mudar o discurso: o rio não divide o Paraguai e o Brasil, pelo contrário, o rio unificou Paraguai e Brasil de forma sólida e indestrutível.

Eu quero dizer ao meu amigo Nicanor Duarte, com a minha experiência de sete meses, que conheço um pouco, por leitura, por conversar com os meus amigos do Paraná e do Mato Grosso, a história política do Paraguai.

O dia seguinte à posse, porque quando nós governamos, o único dia que não tem problema é o dia da posse, está cheio de problemas para quem preparou a festa da posse, mas para nós que somos agraciados, nós não temos problemas. Os nossos problemas começam no dia seguinte.

Nem tudo é tão maravilhoso como a gente imaginava que fosse e muitas vezes a situação econômica é pior do que aquela que nós denunciamos na campanha.
O que eu queria pedir, meu amigo, é que a esperança, a novidade política e o sonho que a sua eleição está depositando nas mentes e nos corações de milhões e milhões de paraguaios, lhe obriga, mesmo nos dias mais difíceis, a não perder a esperança, que você pode cumprir cada palavra que prometeu durante a campanha eleitoral.

Quando tiver muita dificuldade e precisar de um companheiro para discutir, para que possamos ver como ajudar, saiba que no meu Governo nós não temos nenhuma visão de relação hegemônica com nenhum país, nós queremos parceria e companheirismo.

Não precisa todos os protocolos e todos os cerimoniais do mundo para que possamos conversar, quando um precisar do outro, vamos, antes de sermos Presidentes do Paraguai ou do Brasil, antes de sermos de partido tal ou partido tal, antes de sermos paraguaios e brasileiros, nós somos moradores de um planeta pequeno que precisa de muita solidariedade, de muita compreensão e muita fraternidade.

Quando precisarmos uns dos outros, vamos deixar de lado todo o protocolo e vamos nos tratar como companheiros porque, quem sabe, possamos fazer muito mais pelo Paraguai e pelo Brasil.

Muito obrigado.

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