Discurso do Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na Solenidade de Abertura do Seminário Brasil – China: “Um Salto Necessário”- BNDES – Rio de Janeiro/RJ, 30/04/2003

Quero cumprimentar a Excelentíssima companheira Governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho,

Quero cumprimentar o Embaixador Jiang Yuande, Embaixador da China no Brasil,

Meu amigo Samuel Pinheiro Guimarães, Ministro interino das Relações Exteriores,

Senhor Luiz Fernando Furlan, Ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,

Senhor Luiz Dulci, Ministro Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República,

Companheira Benedita da Silva, Ministra da Assistência e Promoção Social,

Senhora Dilma Rousseff, Ministra de Minas e Energia.

Companheiro Miro Teixeira, Ministro das Comunicações,

Companheiro Roberto Amaral, Ministro da Ciência e Tecnologia,

Luiz Paulo Conde, Vice-Governador do Estado do Rio de Janeiro,

Marco Antônio Vale, Prefeito em exercício da cidade do Rio de Janeiro,

Meu amigo Carlos Lessa, Presidente da BNDES,

Meu amigo José Eduardo Dutra, Presidente da Petrobrás, que nos deu uma alegria muito grande essa semana, anunciando a redução do preço da nafta, do óleo diesel, da gasolina,

Senhor Maurício Botelho, Presidente da Embraer,

Senhor Flávio Andrade, Presidente da Souza Cruz,

Senhor Rogério Marinho, Vice-Presidente do jornal “O Globo”,

Senhor Embaixador Marcílio Marques Moreira, Presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro,

Meus amigos Deputados, Senadores, empresários, intelectuais, jornalistas aqui presentes,

Meus amigos e minhas amigas,

Napoleão Bonaparte, ele fez ecoar uma frase que ficou muito famosa junto aos chineses. Disse ele: “A China é um gigante adormecido. No dia em que a China acordar, o mundo vai tremer.” Possivelmente, se ele, na mesma época, tivesse visitado o Brasil, também diria o mesmo. E eu acredito que essa frase, dita por Napoleão, nos leva à compreensão de uma música que marcou a nossa época, pelo menos a da minha geração. Marcou época na vida, acho, de todos os que lutaram por democracia no Brasil, quando dizia: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Durante muito tempo, aqui no Brasil, costumava-se brincar dizendo que as coisas só aconteciam se dessem antes no “New York Times”. Precisou o governo americano transformar a China num parceiro comercial privilegiado para que o resto do mundo acordasse para compreender a China. E eu, particularmente, acho que essa frase do Vandré vai permear todo o meu Governo: o Brasil precisa, definitivamente, aprender que somos um país grande, que temos vocação para crescer e que não precisamos pedir licença a ninguém para disputar as nossas relações políticas, diplomáticas e comerciais.

Eu quero afirmar a vocês aqui, na sede do BNDES, que nesses quatro anos, nós vamos fazer política internacional com tal intensidade, que em algum momento vocês vão dizer para mim, como estão dizendo alguns companheiros hoje, para não deixar o dólar cair mais, e que o Brasil precisa ocupar logo os espaços.

A nossa relação com a União Européia é fantástica, com os Estados Unidos é muito importante, mas nós precisamos abrir novas fronteiras, e não temos o direito de ficar esperando alguém nos convidar. Eu dizia durante a campanha – nós vamos ter que fazer como aquele mascate, que chegava à porta da casa da gente, batia palmas, às vezes, mal-humorada, a mãe da gente ia atender porque estava numa outra ocupação e já ia dizendo “eu não quero nada, não vou comprar nada”, e dali a 20 minutos voltava com um pacotinho e com uma dívida para pagar em 12 ou em 24 meses.

É assim que, na minha opinião, o Brasil precisa proceder. Nós temos a América do Sul, nós temos a China, nós temos todo o mundo asiático, nós temos o Oriente Médio, nós temos a Índia e temos a África, e é uma obrigação política, moral e histórica nossa estreitar cada vez mais a relação com o continente africano, não podemos esquecer isso.

Portanto, quem trabalha com política exterior vai ter muito trabalho nesses próximos quatro anos, vai ter que viajar muito por esse mundo, porque o Brasil vai se descobrir para o mundo. Nós temos um espaço para ocupar e vamos ocupá-lo com a nossa indústria, com a nossa agricultura, com a nossa cultura, com a nossa relação política e com a nossa capacidade tecnológica.

O Brasil precisa compreender que a atitude mais importante que nós temos, neste momento, é recuperar a nossa auto-estima, acreditar em nós mesmos, acreditar que somos competitivos e descobrir onde nos tornaremos competitivos para enfrentar esse mundo cada vez mais globalizado.

Por isso, é com grande prazer que abro os trabalhos do Seminário Brasil-China: Um Salto Necessário. Desejo, em primeiro lugar, congratular-me com os organizadores pela escolha do título do seminário, este é o segundo evento de que participo em pouco mais de dois meses, voltado para o aprimoramento do diálogo entre Brasil e China.

Minha presença é indicação da alta prioridade que meu governo atribui ao estreitamento das relações com a China. A magnífica exposição dos Guerreiros de Xian e os tesouros da Cidade Proibida, que inaugurei recentemente em São Paulo, nos inspira vitalidade e auto-confiança diante de um passado milenar.

Já o Seminário que estamos, hoje, inaugurando, nos remete à possibilidade do futuro, de um futuro onde o Brasil e China serão, cada vez mais, parceiros na construção de uma convivência harmônica e próspera entre nossos povos.

Tenho repetido que a América do Sul será prioridade em meu governo, pois estou convencido de que o desenvolvimento pleno do Brasil só será possível como parte da integração do continente como um todo. As vastas distâncias e disparidades regionais e sociais do Brasil só serão definitivamente superadas quando se conformar o espaço integrado sul-americano. E se temos uma vocação regional, somos, também, um país global. Da mesma forma que a integração nacional passa pela integração regional, estou convencido de que a aproximação com a Ásia e, em particular, com a China, será decisiva para o Brasil realizar esse destino maior.

São múltiplos os aspectos em que Brasil e China formam uma parceria estratégica. De um lado, as potencialidades do nosso intercâmbio comercial são um poderoso estímulo para a conclusão das estradas de integração sul-americana, ligando o Atlântico e o Pacífico, contribuindo, portanto, para viabilizar a própria integração regional. Por outro lado, creio que o êxito econômico chinês oferece esse exemplo de como transformar e integrar um país, dinamicamente, num processo de globalização da economia internacional, com benefícios para toda a população.

Além disso, compartilhamos a determinação de forjar uma ordem internacional democrática e sem hegemonismos, uma ordem na qual o papel central das Nações Unidas e, em particular, de um Conselho de Segurança representativo e legítimo, sejam garantidos.

Este Seminário oferece oportunidade para avaliarmos, juntos, as realizações e promessas dessa parceria. O sinal mais eloqüente da força da cooperação entre os nossos países está na evolução impressionante das trocas comerciais já citadas aqui pela nossa Governadora. E que eu vou repetir para marcar na memória de cada empresário aqui presente.

Desde 2002, a China já é o quarto maior destino para as exportações brasileiras. Os números são especialmente significativos, quando pensamos no ritmo exponencial de seu crescimento. Como resultado, o comércio bilateral praticamente triplicou nos últimos três anos. E quero, aqui, lançar um desafio ao empresariado brasileiro. Uma parceria real, que multiplica as oportunidades para agregar valor aos produtos que intercambiamos, exige disposição de realizar investimentos e estabelecer acordos inovadores. Não pode haver maior demonstração dessa confiança do que a inauguração, ainda este ano, da primeira fábrica da Embraer fora do Brasil.

A cooperação em ciência e tecnologia é decisiva para esse objetivo. O Brasil deseja que trabalhemos juntos para habilitar nossos países a trilharem o caminho do desenvolvimento efetivamente sustentável, assentado na capacitação própria e soberana.

Alegro-me em saber que estão em fase adiantada estudos para a China desenvolver programas de combustível alternativo, baseados no Pró-Álcool brasileiro. Da mesma forma, atribuímos prioridades ao programa de satélites de sensoriamento remoto e estaremos presentes ao lançamento do segundo satélite da série, previsto para o segundo semestre. Ofereço apenas mais um exemplo do elevado potencial dessa sinergia.

No campo da saúde, a combinação da experiência brasileira no combate à AIDS com a capacitação chinesa em medicamentos genéricos torna mais eficaz o combate a esse mal em ambos os países.

Em 2004, completam-se trinta anos do estabelecimento das relações entre nossos dois países. Devemos comemorar esse marco com a renovação do compromisso de elevar nosso relacionamento a um novo e inédito patamar.

É dentro desse espírito que espero poder, proximamente, visitar oficialmente a China. Estou certo de que confirmarei as marcantes impressões que trouxe de minha viagem àquele país há dois anos, de um povo determinado e confiante e desejoso de aprofundar com o Brasil o imenso potencial de cooperação e afinidades capazes de superar as distâncias culturais, históricas e geográficas.

Desejo, por fim, sublinhar meu reconhecimento aos organizadores do Seminário. Fico muito satisfeito que iniciativas como este Seminário estejam partindo do setor privado, o que, para mim, demonstra a sintonia de interesses entre o Governo e a sociedade civil.

Este evento é exemplo de como todos os setores de nossa sociedade podem, juntos, colaborar para fazer avançar esta parceria estratégica e necessária entre Brasil e China.

Obrigado.

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