Declaração do Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, à Imprensa, durante visita de trabalho do Presidente do Peru, Alejandro Toledo – Palácio Itamaraty, 11/04/2003

Meu amigo Presidente Alejandro Toledo,

Meus amigos,

Caros jornalistas aqui presentes,

Durante a campanha eleitoral do ano passado, eu assumi o compromisso de que a integração da América do Sul passaria de uma relação historicamente paternalista ou sentimentalista, para uma integração mais efetiva, nos campos político, cultural e comercial.

Estou há cem dias no Governo, e essa reunião entre Brasil e Peru é a terceira que eu faço com outros Presidentes e com Ministros. Até o dia 12 do próximo mês, estarei completando a 6ª reunião com Presidentes de países da América do Sul. Dia 25 e 26 estaremos reunidos com a Venezuela, dia 28 com a Bolívia e dia 12 do próximo mês estaremos reunidos com o Uruguai.

Eu acredito que o meu Ministro das Relações Exteriores, companheiro Celso Amorim, e outros Embaixadores aqui presentes podem constatar que nunca, na História do Brasil, em tão pouco tempo houve tantas reuniões de trabalho como essas que estamos fazendo.

E estamos fazendo essas reuniões, em primeiro lugar, porque acreditamos. Em segundo lugar, porque queremos criar uma outra referência mundial, um outro centro de decisão, nos campos político, econômico, cultural e social.

Historicamente, nós nascemos na América do Sul, crescemos e morremos olhando para a Europa e para a América do Norte. Possivelmente tenha sido muito importante e necessário que isso tenha sido feito. Mas, num mundo globalizado, onde o que vale é o poder econômico, é a tecnologia e o poder financeiro de cada país, nós, da América do Sul, temos uma oportunidade extraordinária, mesmo reconhecendo que somos países pobres, mesmo sendo tratados como países do Terceiro Mundo, nós temos a oportunidade de dar os primeiros passos, se quisermos, amanhã, ser grandes.

Até porque nem o Presidente Toledo e nem eu teríamos o tamanho que temos hoje, se não tivéssemos nascido pequenos. O importante foi a coragem de nascer. E isso vale para a nossa relação. É importante que tenhamos coragem de transformar a relação entre Brasil e Peru numa relação estratégica, em defesa da nossa soberania, em defesa da nossa cultura, em defesa da nossa economia, em defesa da nossa Amazônia e em defesa de um modelo de desenvolvimento sustentável, que possa despertar, na consciência dos milhões de brasileiros e peruanos, a certeza que nós não iremos passar para a História como apenas mais dois Presidentes da República, que seremos lembrados, apenas, porque alguns salões nobres dos nossos palácios terão as nossas fotografias. Nós não seremos lembrados pelas fotografias, nós seremos lembrados pelo que tivermos competência e capacidade de fazer, para dar cidadania ao povo peruano e ao povo brasileiro.

Os acordos que estamos realizando aqui constituem um grande início. Certamente a ponte de Assis Brasil e Iñapari, nós iremos inaugurá-la no próximo ano. O Brasil, certamente, utilizará o nosso Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, para contribuir com os projetos de infra-estrutura, tão necessários para a integração, com que secularmente sonham o povo peruano e o povo brasileiro.

Por isso, eu quero afirmar, meu caro Presidente Toledo, que embora Vossa Excelência tenha um ano a mais de mandato do que eu, porque o mandato no Peru é de cinco anos, e aqui é de quatro anos, o término dos nossos mandatos será no mesmo ano.

Portanto, nós temos quatro anos pela frente. E eu tenho certeza de que, se depender da sua disposição política e se depender da minha disposição política, estes nossos Ministros irão trabalhar como nunca trabalharam na vida, para que a integração entre Peru e Brasil deixe de ser uma relação menos sentimental para ser uma relação concreta e objetiva, que nos coloque no mundo globalizado, com mais autoridade moral, com mais competência tecnológica, com mais capacidade produtiva e com muito mais respeitabilidade do que qualquer outro Governo.

Eu sei que os Presidentes, como disse Vossa Excelência agora há pouco, mandam menos que os Ministros. Mas eu sei, também, que os Ministros precisam de orientação política. E se nós dois dermos a orientação política correta, pelo que conheci da sua equipe e pelo que conheço da minha equipe, nós vamos fazer, em quatro anos, o que não foi feito nos últimos 40 anos, na relação Brasil e Peru.

Por isso, quero agradecer, de todo coração, o fato de Vossa Excelência ter aceitado o meu convite para vir ao Brasil. E, se Deus quiser, em junho próximo estarei retribuindo essa visita, no Peru, quem sabe para assinar novos acordos.

Muito obrigado.

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