Meu caro Diretor Geral da FAO, Jaques Diouf,
Demais representantes da FAO presentes neste ato,
Ministros de Estado,
Meus amigos da imprensa,
O combate à fome só vai acontecer de verdade, no mundo, quando a fome for transformada num problema político. E, quando falo num problema político, não é o de filiar os famintos a um partido. Quando falo em um problema político quero dizer quando os famintos começarem a preocupar os governantes.
Um faminto, a pessoa que está desnutrida e com fome, não tem sindicatos, não tem partido político. Muitas vezes, não tem nem representantes no Parlamento, de uma Câmara de Vereadores a uma Câmara de Deputados. Às vezes, são levados para votar, tratados como se não fossem seres humanos.
Eu sempre achei que combater a fome precisa, em primeiro lugar, convencer os que comem a estender a mão para os que não comem. E eu sei que é difícil uma pessoa que levanta de manhã e toma o seu belo café, almoça e janta todo dia, ter preocupação com alguém que está passando fome, que às vezes está muito distante ou que, às vezes, está próximo, mas está dentro de um lugar em que as pessoas quase não conseguem ver.
Eu diria que combater a fome é uma combinação entre a ação política do Estado, a ação de solidariedade da sociedade, mas, sobretudo, em alguns casos, é necessário mexer com a mente e com os corações das pessoas que podem mais porque têm mais poder aquisitivo.
Não é fácil acabar com a fome. E eu acredito que a FAO, mais do que ninguém, depois do grande encontro de Roma, em 1996, quando 112 Chefes de Estado se comprometeram a acabar com a fome em 2015, e, hoje, a constatação é que nós estamos longe de acabar com a fome em 2015. A previsão, agora, pelo pouco caso daqueles que assumiram o compromisso e que não o fizeram, é que agora, possivelmente, pelos parâmetros do encontro de 1996, em Roma, teria que se esperar 2050 para acabar com a fome.
Eu estou convencido que é preciso dinheiro para acabar com a fome. Mas, eu estou mais convencido, ainda, de que o dinheiro é apenas uma parte dos problemas, ou uma parte do problema. É preciso que haja, sobretudo, determinação política do governante mas, também, determinação política de cada ser humano da face da terra, que se envergonhe de estar comendo, na sua casa ou num restaurante, sabendo que bem próximo dele tem uma criança em algum lugar do mundo morrendo porque não consumiu as calorias e as proteínas necessárias.
Eu sei que muita gente gostaria que eu já tivesse acabado com a fome, no Brasil. Tem gente que, quando nós anunciamos o projeto, no dia seguinte já estava cobrando: “Não acabou com a fome ainda?”.
E eu confesso que não dá para quantificar a hora e o momento em que nós vamos acabar com a fome, no Brasil. O que dá para afirmar, aos membros da FAO, presentes nesse ato, é que nós precisamos transformar a fome no mais elementar dos direitos humanos, em todo o planeta terra. Porque, enquanto o problema da fome for apenas dos que estão com fome, nós não iremos resolver a questão da fome.
O que eu posso garantir à direção da FAO é que durante 24 horas por dia todos os membros do meu Governo, e se puder contribuir para que todas as pessoas sensatas deste país ajam como o Governo, é que nós estaremos tomando cada decisão pensando em como fazer chegar o alimento na casa de uma pessoa.
E não existe uma única fórmula. É preciso a economia do país voltar a crescer, é preciso gerar empregos, é preciso fazer reforma agrária, é preciso melhorar a educação, é preciso melhorar a saúde.
E nós temos clareza: possivelmente, o nosso projeto de combate à fome não seja o mais perfeito do mundo. Mas eu duvido que no mundo tenha um mais perfeito que o nosso.
E ele não foi feito pelo Governo, ou como peça de um candidato. O Projeto Fome Zero foi elaborado sob a coordenação do Ministro Graziano que, na época, era meu assessor no Instituto de Cidadania, mas envolveu grande parte das pessoas que, neste país, um dia, se preocuparam com a fome.
Há 40 dias atrás, ou há 2 meses atrás, alguém poderia dizer: “Bom, mas esse projeto de combate à fome é uma peça política do candidato Lula”. Não era quando eu era candidato e não é agora. O combate à fome é um compromisso ético, moral, cristão. É, sobretudo, uma profissão de fé, de estender as mãos para aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive. É o mínimo que se espera de um Governo, é o mínimo que se espera de um homem público.
Lamentavelmente, a elite brasileira e, dentro da elite brasileira, até grandes setores da nossa gloriosa imprensa, estão acostumados com outro tipo de Governo: um Governo em que todos os recursos públicos disponíveis são feitos para atender a demanda daqueles que, necessariamente, não deveriam precisar do Estado.
E nós queremos fazer o contrário. Nós queremos utilizar todo o potencial que o Estado tiver para fazer políticas públicas, na tentativa de devolver para o povo cada centavo em forma de um benefício qualquer que signifique, para ele, ser tratado com dignidade e com o respeito que todo ser humano tem.
Eu sou um sonhador. Por natureza, eu sou sonhador. E eu acredito que haverá um dia, no Planeta Terra, governantes que, ao invés de querer produzir uma bala para matar alguém, esteja disposto a incentivar a plantar um pé de feijão, para salvar alguém.
O dia que nós conseguirmos isso, a humanidade terá chegado ao paraíso tão sonhado, que todos nós buscamos.
Obrigado.

14/02/2003



Os comentários estão fechados.